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Endividamento elevado muda padrão de consumo e pressiona empresas

Com 71,1% das famílias paulistanas endividadas no mês de março, o padrão de consumo mudou e começa a pressionar o desempenho das empresas, especialmente no Comércio e nos Serviços. Equivalente a cerca de 3,2 milhões de lares com dívidas, o índice aponta o comprometimento médio de 26,7% da renda. O panorama foi detalhado durante reunião do Comitê de Relacionamento de Assessorias Econômicas e Especiais (CRAEE) da Federação do Comércio de Bens Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), no dia 15 de abril, que trouxe dados sobre o comportamento financeiro do consumidor, apresentados por Bruno Souza, assessor econômico da Federação. “O cenário revela uma mudança no papel do crédito dentro do orçamento doméstico, pois deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade para sustentar o consumo”, afirmou. A pressão é mais intensa entre as famílias de menor renda, em que o endividamento atinge 74,5%, mas também se mantém elevado nas faixas superiores, com 61,3%. Esse quadro reduz a capacidade de ajuste financeiro e torna o consumidor mais cauteloso nas decisões de consumo. Para Souza, a consequência direta é um comportamento mais defensivo, com foco em itens essenciais e menos margem para gastos de maior valor. Crédito sustenta consumo O principal tipo de dívida é o cartão de crédito, com 79,3%, o principal instrumento de financiamento das famílias. Na prática, tem sido utilizado para cobrir despesas do dia a dia, e não apenas compras pontuais. “Hoje, o crédito funciona como uma ponte entre a necessidade e a capacidade de pagamento”, explicou. Esse movimento mantém o consumo ativo, mas em menor qualidade. O consumidor segue no mercado, porém mais sensível a preços, buscando promoções e alternativas mais baratas. Ao mesmo tempo, há redução da liquidez, o que diminui as compras à vista e amplia a dependência do parcelamento como condição para consumir. A tendência deve continuar: cerca de 11,4% dos consumidores pretendem contratar crédito nos próximos meses, dos quais 83% serão destinados ao consumo corrente. O dado reforça a leitura de que o crédito passou a sustentar despesas básicas, sem necessariamente estar atrelado a aumento de renda. Impacto para os negócios O enfraquecimento financeiro das famílias já se reflete no ambiente empresarial. O número de empresas inadimplentes no Brasil chegou a 8,9 milhões, com alta de 29% em relação ao ano anterior e um volume de R$ 213 bilhões em dívidas. Os setores mais dependentes do consumo doméstico concentram os maiores reflexos, com destaque para Serviços e Comércio. Segundo o assessor, há uma transmissão direta desse movimento. “O problema que começou nas famílias está chegando ao balanço das empresas, principalmente aquelas mais expostas ao consumo recorrente”, disse Souza. A inadimplência das famílias também avançou. Em março, 20,9% estavam com contas em atraso e tempo médio de 66 dias para regularização. O aumento de 1,6 ponto porcentual (p.p.) em um ano representa mais de 70 mil novas famílias inadimplentes, indicando mais dificuldade de recuperação financeira. O ambiente de pressão aparece ainda no número de recuperações judiciais, que somaram 2.466 casos, um recorde histórico. O dado mostra que muitas empresas continuam operando, mas com elevado nível de endividamento e restrição de caixa. Nesse contexto, a recomendação é ajustar a estratégia ao novo perfil do consumidor. Mais seletivo, com menos recursos disponíveis e maior dependência de crédito, ele exige políticas comerciais mais cautelosas. Entender esse comportamento deixou de ser diferencial e passou a ser condição para manter as vendas em um ambiente mais desafiador. Foto: Freepik

Brasileiro encerra 2025 mais endividado do que em 2024

O nível de endividamento de dezembro de 2025 (78,9%) é o maior para o mês em toda a série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de dezembro, apurado e divulgado nesta quarta-feira (14) pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O resultado representa um aumento de 2,3 pontos percentuais em relação a dezembro de 2024. Na inadimplência, também houve aumento na comparação anual, chegando a 29,4% dos entrevistados. Na comparação mensal, no entanto, houve melhora dos índices. Após atingir a máxima histórica de 79,5% em outubro, o percentual de famílias endividadas recuou para 78,9% em dezembro, a menor taxa registrada desde julho. O movimento de recuo também foi observado no volume de contas em atraso, que atingiu 29,4% no último mês do ano, o menor patamar desde abril (29,1%), distanciando-se do pico de 30,5%, registrado também em outubro. Apesar da melhora no último trimestre, o saldo anual revela um cenário de maior pressão financeira em comparação ao ano anterior. O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, reforça o compromisso da Confederação em construir a segurança jurídica e econômica necessária para o desenvolvimento do País em 2026. “A curva de endividamento acompanhando a alta da taxa Selic é mais um indício de que precisamos diminuir os juros de maneira responsável. A economia brasileira mostra sinais de consistência, fechando 2025 com inflação, câmbio e emprego melhores do que o esperado; porém, a continuação desses resultados depende diretamente de um ambiente mais favorável à livre-iniciativa, considerando a instabilidade global pela qual passamos”, afirma Tadros. A redução dos indicadores no fim do ano é atribuída a um maior planejamento dos consumidores e ao momento sazonal das festas de fim de ano, que aquece o comércio e o crédito. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o mercado de crédito tornou-se mais seletivo ao longo de 2025 por causa da alta da Selic e do avanço na inadimplência no segundo semestre, o que resultou em dívidas com prazos mais curtos. Em dezembro, o prazo médio de pagamento foi de 7,1 meses, contra 7,4 meses no mesmo período de 2024. Destaques por renda A análise mostra que a redução mensal do endividamento ocorreu em todas as faixas de renda, com destaque para as famílias que ganham acima de 10 salários mínimos. Já no quesito inadimplência, as famílias com renda entre 3 e 5 salários apresentaram a queda mais expressiva tanto no mês (de 28,4% para 26,8%) quanto no comparativo entre os anos (de 28,1% para 26,8%). O cartão de crédito consolidou-se como a principal modalidade de dívida, alcançando 85,1% do total de famílias endividadas — um aumento de 1,3 ponto percentual frente a 2024. Este dado gera cautela, visto que o cartão possui uma das maiores taxas de juros do mercado, em torno de 90,1% ao ano. Por outro lado, o percentual de famílias que declararam não ter condições de pagar suas dívidas caiu para 12,6%, encerrando o ano abaixo do patamar de 2024. A parcela média da renda comprometida com dívidas permaneceu estável em 29,5% em dezembro, nível inferior aos 29,8% de dezembro de 2024. Perspectivas Tanto o endividamento quanto a inadimplência devem manter a tendência de recuo durante o primeiro trimestre de 2026. Para o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, a capacidade do brasileiro de quitar dívidas e fugir dos juros para manter seus consumos está vinculada a uma redução gradual da Selic por parte do Banco Central. “Esperamos que, ainda no primeiro semestre, o BC entenda a necessidade de trabalhar com uma taxa Selic mais razoável do que a que vemos desde a metade de 2025. O último trimestre foi de bons resultados, muito por conta do 13º salário e das datas festivas, mas há um risco iminente no ciclo de endividamento, principalmente por cartão de crédito, uma bola de neve das dívidas”, pondera Bentes.  Confira a análise completa e a série histórica. Foto: Freepik